Você sabia? No Brasil existem pelo menos 220 Revistas Científicas com ênfase em Administração

É quase unanimidade que o surgimento das tecnologias da informação e comunicação (TICs) trouxeram benefícios à sociedade. Na esfera do meio acadêmico e das publicações científicas isso é bastante perceptível: podemos ter acesso a livros e artigos científicos com apenas alguns cliques. Basta um computador, acesso à internet e conhecimento sobre as fontes científicas confiáveis para realizar uma busca.

Entretanto também há os efeitos negativos e indesejáveis das TICs. Um dos mais prestigiados sociólogos contemporâneos, o polonês Zygmunt Bauman – criador do conceito de Modernidade Líquida -, aponta para os malefícios causados pelo uso dessas tecnologias. Segundo o sociólogo, estamos passando por uma “crise de atenção” devido a fragmentação do conhecimento causado pela grande quantidade de fontes de informação disponíveis na internet. Para Bauman “não há como conceber a sociedade do futuro sem tecnologia. Então, se não pode vencê-la, una-se a ela. Tente contrabalancear o impacto negativo, como a crise da atenção, da persistência e de paciência. É preciso ter determinadas qualidades se você deseja construir conhecimento e não só agregá-lo: paciência, atenção e a habilidade de ocupar esse local estável, sólido, no mundo que está em constante movimento. É preciso trabalhar a capacidade de se manter focado.”

Na época em que ainda estava finalizando meu curso de graduação em Administração, em meados de 2013, me deparei com essa “realidade líquida” descrita por Bauman. Naquele ano, estava responsável por realizar um levantamento sobre determinado tema na área e acabei deparando-me com uma ciência bastante dispersa (no sentido de que era difícil encontrar na internet quais eram os periódicos científicos considerados “válidos” para as buscas que necessitava no campo de Administração). Conhecia algumas revista mainstreams nacionais como a RAE, RAUSP, RAC, entre outras, mas não conseguia conceber dentro dos meus “quadros mentais” como estava estruturado esse campo. Após procurar incessantemente em algumas bases/indexadores como a Periódicos CAPES, Scielo, Google Scholar , e uns tempos depois também descobri o excelente trabalho da ANPAD com a criação da base Spell, comecei a compreender melhor a lógica da produção científica nacional.

Diante de tantas informações, havia chegado a conclusão que precisava buscar um espaço sólido e estável em meio a tanta informação, seguindo as recomendações de Bauman. O aprendizado até compreender a forma como as coisas eram organizadas e (des)integradas levou muito tempo, e até hoje ainda aprendo um bocado sobre publicações científicas ao buscar os temas que me interessam nas bases ou periódicos nacionais e internacionais.

Nas ciências sociais aplicadas, aprendemos a olhar para a realidade como algo socialmente construído, ou melhor, em constante construção. O que “é” e o que “não é” “ciência” é definido por pessoas de carne e osso, assim como eu e você. E é também sempre inacabado, em constante mudança. Sendo assim, a aceitação do que é  e o que não é científico passa por uma séries de questões sociais e institucionais que buscarei descrever de forma sucinta nesta publicação. Essa entendimento, postulado principalmente pelos sociólogos do século XX e XXI, contrapõe a antiga ideia de que a ciência é neutra e isenta de valores e erros, e de que existe uma verdade única e universal sobre a realidade da natureza ou da sociedade, como ainda acreditam alguns herdeiros do “positivismo Comtiano”.

Como publiquei no primeiro post do Blog, a responsabilidade em definir as diretrizes e de avaliar a qualidade das revistas científicas nacionais e internacionais em nosso país está sob comando da CAPES. Além de outras diversas atribuições que ela possuí, uma delas é a de institucionalizar os critérios sobre o que é considerado científico ou não. A cada mudança que ocorre nos critérios Qualis Capes é cada vez mais perceptível que a instituição está seguindo o mainstream internacional de publicação científica.

Internacionalmente, esse mainstream acadêmico segue a lógica de produção científica alicerçada no fator de impacto. Revistas com maiores fatores de impacto (baseado na quantidade de citações dos artigos publicados pela revista científica) são consideradas mais relevantes para as comunidades acadêmicas. Essa lógica de produção científica possuí severas críticas em diversas comunidades, contudo, deixarei para tocar nessa “ferida” em outra publicação, pois confesso que ainda não li com profundidade os defensores e os opositores desse sistema, embora eu já tenha certa posição a respeito e que não compreende nenhum dos dois extremos.

A CAPES para criar seus critérios (A1 ,A2 ,B1 ,B2 ,B3 ,B4 ,B5 ,C) baseia-se principalmente nos fatores de impacto de três principais bases: Web of Science (Thomson Reuters), Scopus (Elsevier), e mais recentemente Scielo (FASPESP/CNPq/BIREME). Essas bases possuem uma grande quantidade de revistas científicas indexadas, o que possibilita a busca integrada dos artigos científicos e também o cálculo dos fatores de impacto (veja por exemplo, o ranking 2014 criado pela base Scopus na área de Administração e Contabilidade). Contudo, para uma revista estar indexada em uma dessas bases deve seguir uma série de rígidas regras de boas práticas de publicação científica, aos quais muitas de nossas revistas nacionais ainda não conseguiram ou não possuem intenção de se adaptar. Para resolver esse impasse, a CAPES criou regras próprias e a cada Triênio (a partir de 2013-2016 serão Quadriênios) divulga a lista de periódicos considerados científicos para cada área de nosso país. Esses critérios são utilizados principalmente para avaliar o desempenho dos programas de pós-graduação nacionais e compõe parte da avaliação do chamado “Conceito CAPES”.

Há algum tempo atrás eu já tinha uma noção de que tínhamos muitas revistas científicas nacionais em nossa área. Sabia disso porque a base Spell – maior base nacional, que reúne uma série de periódicos na área de administração, contabilidade e turismo –  já possuía cerca de 100 revistas indexadas. No entanto, como as revistas devem pagar para estarem indexadas nessa base, imaginei que houvessem muitas outras. Desse modo,  com minha curiosidade, paciência e persistência fui a procura da última lista disponibilizada pela CAPES utilizada para avaliar o quadriênio 2013-2016 e encontrei uma enorme tabela com mais de 1000 revistas científicas na área de Administração, Contabilidade e Turismo. Na tabela abaixo criei uma pequena síntese dos estratos do Qualis que essas revistas científicas se enquadravam.

QUALIS

Só que nessa lista disponibilizada, contém periódicos científicos que não fazem parte do campo de Administração. Isso ocorre pois se um pesquisador da área realiza uma publicação na área de Saúde, por exemplo, essa revista também é avaliada e recebe um conceito. Para resolver esse ‘problema’ optei por realizar um filtro. Para isso, avaliei a lista completa em todos estratos em busca das revistas científicas nacionais com ênfase em Administração. Devido ao grande número, optei por excluir as revistas multidisciplinares e interdisciplinares, além das áreas de contabilidade, economia, psicologia, entre outros campos que não possuem foco em gestão, embora possa existir alguma publicação a respeito (considero que essa é a grande limitação desse levantamento). Além das revistas com foco em administração e gestão, escolhi por manter os periódicos da área de turismo, finanças e produção, pois são áreas que considero mais correlatas. Se houvessem dúvidas na análise do nome da revista, procurei as revistas no Google e verifiquei seu foco e escopo, e caso ocorressem ainda dúvidas a respeito conferi as publicações da revista. Cabe salientar que o levantamento pode conter alguma falha, logo peço que os leitores comuniquem nos comentários do Blog caso sintam a falta de alguma revista científica na lista que irei disponibilizar.

QUALIS2

Após o filtro foi possível identificar pelo menos 226 revistas científicas (excluindo o estrato “C”) com ênfase em Administração, o que compõe 21,44% do total de periódicos avaliados pela CAPES. O que chama atenção é que não temos nenhuma revista nacional no estrato A1. Isso ocorre desde avaliações anteriores pelo motivo de não estarem indexadas em bases internacionais ou não atingirem o fator de impacto suficiente exigido no critério. Temos então 10 periódicos no estrato A2 (4,22%), 8 no estrato B1 (3,38%) e a grande parte das revistas nacionais concentram-se nos estratos B2 (15,19%), B3 (24,05%) e quase metade no estrato B4 (42,19%), e cerca de 10% concentram-se nos estratos B5 e C.

Curioso não? Fiquei bastante surpreso com a quantidade de revistas científicas que temos em nossa área. Mas fico aqui refletindo diversas coisas a respeito…No caso de escrever um referencial teórico, ao fazer a revisão da literatura considerando tudo que é publicado sobre determinado tema, como ter tempo para procurar em tantas revistas? Se muitas delas não estão indexadas em bases nacionais ou internacionais, o esforço parece ser maior ainda. Isso que ainda não estou levando em consideração as revistas científicas internacionais.

Nos dias atuais, o conhecimento está tão disperso e fragmentado, que o esforço para separar o joio do trigo poderá ser penoso para nós pesquisadores. Se utilizo os critérios da CAPES para fazer meu levantamento, posso ser criticado por “marginalizar” as revistas com estratos menores. Sendo que concordo que existem artigos excelentes publicados em estratos como B4 e B5, por exemplo. No entanto, o tempo que temos é escasso e em algum momento de nossas pesquisas precisamos fazer algum tipo de recorte em nossa busca.

Parece que Bauman realmente está correto. Passamos dos tempos sólidos das grandes bibliotecas, onde o conhecimento era mais raro, profundo, concreto, para uma era em que podemos encontrar esse conhecimento em qualquer lugar da internet, muitas vezes em massa, de forma rasa e fragmentada.

Como poderíamos resolver esse impasse? Acredito ser uma questão relevante para debate nos meios acadêmicos.

Abaixo disponibilizo a lista com os nomes das revistas científicas com o ISSN e o estrato:

A2.png

B1.pngB2B3B4

B5

C

Também identifiquei algumas revistas  indexadas na base Spell mas que não estavam na lista da CAPES (não sei dizer o motivo):

INDEX

Publicado por Rodrigo Assunção Rosa

Doutorando em Administração pela FGV/EAESP. É mestre em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

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5 comentários em “Você sabia? No Brasil existem pelo menos 220 Revistas Científicas com ênfase em Administração

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  1. Rodrigo, se me permite, gostaria de te dar uma ideia (se é que você já não pensou nisso). Seria interessante um post sobre o papel (e o dia-a-dia) do Editor de periódicos acadêmicos em administração. A grande maioria dos autores reclama da demora no processo de avaliação de artigos e publicação, contudo, não sabem os processos e as dificuldades de editar uma boa revista (burocracia, avaliadores que perdem o prazo etc). Se você pudesse entrevistar dois ou três editores, e relatar suas experiências no blog, penso que seria muito útil para a comunidade acadêmica de administração. Abraço.

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