Esqueça o Qualis Capes – Critérios alternativos de avaliação das revistas científicas

Existem muitos outros critérios além do Qualis Capes que buscam analisar a relevância e o impacto das revistas científicas tanto no Brasil quanto no mundo. Na realidade, o Qualis não deveria servir para essa finalidade, e sim, apenas como um indicador para a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) avaliar os programas de pós-graduação de nosso país (e ponto final).

A própria CAPES é muita clara quanto a isso, quando especifica em sua página que:

A função do QUALIS é exclusivamente para avaliar a produção científica dos programas de pós-graduação. Qualquer outro uso fora do âmbito da avaliação dos programas de pós-graduação não é de responsabilidade da CAPES

Por muito tempo e até mesmo hoje, muitos pesquisadores ainda procuram pautar suas escolhas e percepções apenas com base no critério Capes. Avaliações de concursos, financiamento para pesquisas e critérios de bolsas aos estudantes em universidades públicas e privadas também são outros tipos de eventos que consideram muitas vezes apenas o Qualis Capes.

Do meu ponto de vista, esse tipo de escolha é prejudicial, simplesmente porque o Qualis possui diversas limitações, o que acaba restringindo o entendimento de questões mais complexas de como se dá a dinâmica das publicações científicas no Brasil e no mundo.

A seguir pontuo alguns aspectos que considero negativos:

1) O objeto de avaliação do Qualis são as revistas científicas e posteriormente os programas de pós-graduação brasileiros. No entanto, há sempre a insistência por parte dos pesquisadores e programas de trazer isso ao nível do indivíduo. Pode o pesquisador ser individualmente avaliado apenas face às revistas onde ele publica? “Me diga onde publicas que te direi quem és”, seria esse o lema? Essa limitação renderia um longo debate…

2) A decisão sobre os critérios é realizada quase de forma monocrática por comissões de cada área, desconsiderando muitas vezes a complexidade da pesquisa nacional e internacional dentro de seus próprios campos;

3) O Qualis Capes é quase estático. Como é modificado apenas trienalmente (possivelmente agora será quadrimestral), ele não consegue acompanhar a dinâmica e evolução dos periódicos e publicações científicas;

4) Devido a isso, os pesquisadores muitas vezes publicam levando em conta um critério, e depois são avaliados por outro tipo de critério (como aconteceu na recente mudança);

5) A lista fornecida pela CAPES desconsidera várias revistas científicas internacionais relevantes, pelo simples fato de um pesquisador brasileiro não ter publicado em determinada revista lá fora.

6) Isso leva os pesquisadores a compreenderem melhor quais são os critérios Capes para realizarem suas escolhas. No entanto, embora exista a divulgação desses critérios, eles estão escondidos em algum arquivo em PDF no site da Capes e não são amplamente divulgados. Geralmente os pesquisadores só sabem que existem determinadas revistas A1, A2, B1 etc., mas não têm clareza sobre quais são as fronteiras que levam as revistas a possuírem determinado conceito (expliquei um pouco sobre isso numa postagem anterior).

7) Além disso, a lista da CAPES é confusa. São consideradas revistas científicas de áreas muito distintas, não sendo o foco da maioria dos pesquisadores do campo. Por exemplo, no último levantamento que realizei, apenas cerca de 20% das revistas nacionais contidas na lista do campo de Administração, Contabilidade e Turismo eram da área de Administração. Os outros 80% eram periódicos de outras áreas (como Enfermagem, Direito e etc).

8) Como não há quase incentivo financeiro e institucional para as revistas brasileiras progredirem em termos de qualidade de gestão e avaliação de seus periódicos, o Qualis Capes acaba marginalizando muitas revistas com grande potencial, colocando-as em estratos irreais frente a qualidade de suas publicações.

9) Talvez existam diversos outras questões e detalhes que não recordo no momento. Deixo a você leitor para pontuar outros itens que estão faltando….

Para sair dessa visão estreita a respeito do nosso campo científico, sugiro o conhecimento de outros diversos espaços que avaliam os periódicos científicos existentes. Os diferentes critérios e métricas possibilitam que não fiquemos presos apenas por avaliações estáticas (como a da Capes) ou muito privativas (como o fator de impacto JCR que considera um número limitado de revistas internacionais).

Abaixo destaco a lista com algumas bases ou sites que realizam avaliações de periódicos científicos (alguns restritos ao campo de Administração). Deixarei a critério do leitor para explorar cada um deles.

1) Fator de impacto Spell (ANPAD – revistas nacionais)

2) Journal Citation Report (Thomson Reuters – acesso via periódicos Capes pelo IP da Universidade – revistas internacionais e poucas nacionais)

3) Scimago Ranking (Elsevier – Revistas internacionais e algumas revistas nacionais)

4) Ranking da ABS (revistas internacionais)

5) Raking Financial Times (revistas internacionais)

6) Eigenfactor (revistas internacionais)

7) Google Metrics (Revistas nacionais e internacionais)

A cada ano as bases nacionais e internacionais de periódicos científicos têm se consolidado, aprimorando a busca e conexão entre as publicações existentes. Na minha opinião, penso que por um lado são avanços importantes, principalmente devido a nossa “racionalidade limitada” que nos impede de ter o tempo necessário para acessar todos os conteúdos sobre determinado tema. Por outro lado, cabe um adendo de que é importante também considerarmos que as métricas não são tudo na vida de um pesquisador. E nem sempre (ou nunca) uma busca de artigos ou de um local para publicar deverá (deveria) seguir métricas. Antes de publicar em qualquer lugar ou até mesmo ao realizar o levantamento dos artigos, é importante entendermos com quem estamos conversando. Com quais autores converso e onde eles publicam? Nem sempre a conversa sobre determinado tema irá nos levar a revistas de alto impacto. Muitas vezes ela poderá ocorrer a nível de Brasil, de América Latina ou até mesmo em comunidades internacionais em journals de impacto intermediário. A descoberta de um “lar” para nossos artigos é uma construção única e contingente, valendo-se muito de nossas experiências e conhecimentos enquanto pesquisadores, não devendo ser pautada apenas por critério x ou y de determinada métrica (infelizmente isso seria o ideal, mas sabemos que ocorre muito pouco).

Os links trazidos nessa publicação buscam ampliar as informações sobre as alternativas ao critério da Capes ao considerar a influência das revistas científicas. A provocação que fica: Esqueçam o Qualis Capes e vamos abrir nosso leque para outras possibilidades e oportunidades existentes.

Publicado por Rodrigo Assunção Rosa

Doutorando em Administração pela FGV/EAESP. É mestre em Administração pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).

¹http://www.capes.gov.br/avaliacao/instrumentos-de-apoio/classificacao-da-producao-intelectual

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3 comentários em “Esqueça o Qualis Capes – Critérios alternativos de avaliação das revistas científicas

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  1. Rodrigo, parabéns pelo artigo: “Esqueça o Qualis Capes – Critérios alternativos de avaliação das revistas científicas”. Em concursos para professor visitante me deparei com a exigência do Fator de Impacto que poucas revistas brasileiras têm e, por outro lado, a maioria das revistas brasileiras que possuem Qualis não ultrapassam o B2. Mais recentemente em concurso para um Instituto Federal havia a exigência de classificação das revistas em que tinha publicado, para efeitos de pontuação, conforme o ranking Qualis, porém dois artigos que havia publicado no exterior ficaram de fora por não possuir esta avaliação, embora o Fator de Impacto fosse 4,989. Está na hora de pensar em critérios de avaliação diferentes que estimulem a produção e divulgação científica pois, a final, eu não posso publicar na revista de minha instituição porque é Qualis B4 e isso não é bom para mim ou, ainda, não posso publicar artigos e livros no Brasil, pois na hora de uma seleção a produção nacional vale menos: livro publicado no exterior tem o valor total do item e, livro publicado no Brasil somente conta 80% do valor do item).
    Albeiro Mejia Trujillo

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    1. Albeiro, obrigado pelo comentário. No caso de concursos, caso o artigo tenha fator de impacto JCR ou H-Scopus que faça parte dos critérios adotados pela sua área, ao meu ver seria possível entrar com um recurso solicitando que a comissão avalie de acordo com o critério real adotado pela sua área. Digo isso pois o fato de um periódico com JCR ou H-Scopus não estar na lista Qualis, não quer dizer que ele não é valido, signifca apenas que nenhum professor que é avaliado em PPGs no Brasil publicou naquele Journal. Portanto, a lista Qualis é bem falha nesse sentido, e muitas vezes pela mau uso de alguns professores e comissões acaba havendo esse tipo de distorções e avaliações erradas.

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